com certeza eu quero o desmonte

com certeza eu quero o desmonte

o desmonte da universidade pode ser a melhor coisa que já aconteceu à humanidade desde as desgraças de Bolonha. (ou, mais precisamente, as de Ur).

eu só peço que desmonte e não venda. nem as peças. nem as pessoas. eu peço que desmonte sem cuidado. de preferência taque fogo. não deixe nem as brasas no chão (ou as use como ultimas relíquias de Carvão) .

eu quero a abolição da universidade. desse corpo de monges de uma nova Religião. (deus está à frente, abra os olhos e siga!).  o fim de uma casta de padres recolhendo o dizimo de quem sua sob o sol a fim de “produzir conhecimento” = “interpretar o desejo divino”. tudo cientificamente claro. é como se produz a melhor religião.

o teto é de vidro, óbvio. eu nem saberia que sou basicamente um padre semi novato, se não figurasse entre seus quadros. a universidade vai até você. mas pelo menos por isso posso dizer, com pecado, que o conceito de culpa não faz sentido e você vai entender.

nos compreendemos, porque estamos em situações minimamente semelhantes. eu não sei apenas a mesma Língua e jargão que você. eu sei o que você espera que seja dito, e o que você pode responder sem maiores problemas. nós conhecemos o discurso do não pode (o discurso de subtexto de qualquer organização escolástica como a nossa).

somos (aqui me apropriando de termos sem créditos – algo que também não pode) brahmins da sociedade industrial (ou seríamos – a distinção periferia-núcleo ainda faz sentido, afinal).

desses se espera que levem a sociedade ao caminho certo. e estamos, pelo menos em intenção, buscando isso com o máximo esforço! (não, não estamos. estamos assistindo séries no netflix, trabalhando em empregos, digitando em celulares e louvando o capital-progresso). Intenções importam,  no entanto?

intenções são importadas, com toda certeza. nosso pouco ativismo é feito em plataformas desenvolvidas e mantidas por pessoas que sabidamente ganham dinheiro (muito) com isso.

onde eu quero chegar, afinal? no óbvio: não estamos mudando nada. Absolutamente nada. o discurso é de mudança radical e continuada. a prática é o negócio símio de sempre (LAND, 231X): poder. o harem do imperador e alguns artesãos pra entreter, soldados pra lutar, inimigos pra vencer e espaços pra conquistar (siderais, ecológicos).

a evidencia é clara: estamos em uma universidade. que não pagamos (e bradamos em altos pulmões que não queremos pagar) – sem nunca nos perguntarmos: então, quem paga?

a pergunta volta (a caça com bumerangues é uma habilidade rara e complexa): e você,  não faz nada? [evitarei de falar em falácia porque o discurso filosófico é exatamente o que me enoja]. faço, mas não é da sua conta. o que é da sua conta – vai ficar na sua conta, vão contar sobre você – é o que você faz. um castelo bem pequeno, mas é o único que te pertence.

na paralisia confortável em que nos consternamos, perdemos vista do que há, efetivamente para alem dos muros (da cidade, da civilidade): caos. interações determinísticas sem linearidade alguma (essa é mais ou menos a definição matemática de caos). é esse caos, esse lá fora (as profundezas onde dormem monstros), esse desconhecido, que manda em nossas vidas.

se de fato queremos mudança (e isso de forma alguma é um dado – as evidências vão no sentido contrário: queremos o antigo futuro, para vivermos no antigo passado), então é com essa força que temos que lidar. temos, essencialmente, que trazer um pouco de caos (de ausência de ordem, de abandono do esforço de contenção, da recusa à domesticação, do traçamento de linhas) para dentro. de nos e da universidade. vamos ter que esquecer efetivamente dos inimigos. (não do conflito e da concorrência, mas da eliminação do adversário e do triunfo do bem). vamos ter que parar de louvar o poder.

enquanto seu objetivo como revolucionário for obter poder – e não se livrar dele – você não vai revolucionar nada. será funcionário público de carreira aos 45, ganhando na média para comprar o último modelo de smartphone,  ainda torcendo pelo seu partido, rezando pelo seu time (intelectual, esportivo, memético) e votando em seus clérigos favoritos. Ou, pior, será arcebispo da Catedral do Progresso, viajando de avião para conferências sobre capitalismo e sustentabilidade, passando a doutrina do bem aos seus pupilos e preocupado com o mais novo ressurgimento do fantasma do fascismo (a nova caça às bruxas favorita).

prefiro que desmontem tudo agora.